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| 25.06.2009 |
Fim do diploma
Diploma, um documento sem valor O Supremo Tribunal Federal envergonha o Brasil ao extinguir a formação escolar para jornalista. Numa decisão esdrúxula, oito ministros da Corte jogaram aos porcos as pérolas que estudos e dedicação disponibilizam ao jornalismo brasileiro. O argumento de que o diploma universitário para comunicadores sociais fere o princípio constitucional da liberdade de expressão denuncia a deficiência intelectual de um tribunal máximo formado por diplomados e pós-diplomados que confundem pautas com receitas culinárias (coisas bem parecidas, não?). O diploma é documento jurídico? Sim. Revela competência? Não. Contudo o Supremo não desprezou somente o vil papel das letras douradas e garrafais, mas o papel da educação na carreira de qualquer jovem interessado no jornalismo. Para bancar os pudicos dos novos tempos, até ressuscitaram o fantasma do Regime Militar de 64 para lembrar que, ‘de agora avante’, TODOS poderão escrever livremente em jornais, pronunciar-se abertamente em rádio, televisão, internet sob a alcunha de jornalista. Que democrático! Semelhante a dizer que só se comunica quem tem boca. Surdez, cegueira e mudez dantescas considerar, sob as luzes da LEI, que cerceamento de expressão é sinônimo de repressão intelectual. Vixe. Se a intenção é democratizar a comunicação, o Supremo poderia analisar também a constitucionalidade da concentração midiática no Brasil onde a mídia está agrupada nas mãos de meia-dúzia de empresários. Um artigo postado em Caros Amigos mostrava, de forma irônica, um viés louvável para a decisão do STF; isso se o fim do diploma realmente servisse para dar voz às camadas menos ouvidas, já que para registrar um jornal impresso, por exemplo, era obrigatório que um jornalista fosse responsável pela publicação. Mas, com ou sem diploma, a liberdade de opinião nos grandes veículos da imprensa brasileira continuará sendo privilégio de poucos. Isto não seria inconstitucional? Mas a pergunta que grita no silêncio da ignorância: a quem interesse jornalismo sem estudos? Sim, porque pesquisas recentes revelam que mais de 70% dos brasileiros defende a formação universitária para os jornalistas e que, nas redações, a maioria dos profissionais passou pela faculdade. Então, a ação judicial movida pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo representa os interesses de quem? Dos que pagam o salário do jornalista diplomado? Assim o STF evitará “os eventuais riscos à coletividade ou danos a terceiros?” Nesse sentido, o julgamento do STF contribuiu em que para a sociedade? Em nada, absolutamente. E o ministro Gilmar Mendes já anunciou que outras profissões terão seus registros cassados. Ou seja, nossa Corte Suprema dedicará tempo, dinheiro e esforços para ampliar o mercado de trabalho em detrimento da formação escolar. Às favas o ensino superior. Pobre ENEM. Mas só ruirão as profissões frágeis como o jornalismo (sobre essa fragilidade leia-se neste blog o artigo Profissão Repórter). E as ocupações oriundas do curso de Direito que exigem apenas leitura e interpretação (sempre questionável) de leis e códigos também terão os diplomas derrubados? Afinal, ler e entender não requerem arcabouço científico e podem prejudicar a coletividade tanto quanto a matéria de um repórter sem ética (diplomado ou não) e compromisso social. Mas esqueçamos essa lenga-lenga pois a educação superior exerce um papel simbólico: produzir um documento sem valor como o diploma.
Escrito por Claudemar Oliveira às 10h22
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| 13.04.2009 |
Uma geração abençoada Na camisa de um jovem: “Somos da geração dos que amam a tua presença”. Vale refletir se isso é uma afirmação ou uma divulgação (sic) no sentido nato de propaganda. Sim, porque as ‘gerações atuais’ amam frases de bom efeito publicitário expostas em roupas bem transadas ou citações memoráveis de grandes pensadores. Mas o que estará registrado sobre nossa juventude em 2119? A resposta pode ser imprevisível, mas talvez sejamos lembrados como aqueles que cantaram, em tom maior: “Ela veste uma calça apertadinha... perereca pra frente, pra frente pra trás”. Como protagonistas de uma sociedade em que o relativismo imperou soberano, onde quase tudo é permitido em nome da liberdade individual, de expressão ou de mercado. Escreverão também que nossa geração desprezou os livros, se tornou avessas as letras sabiamente paginadas num material palpável para usufruir das novas tecnologias digitais e volúveis. Fomos domesticados para pouco raciocínio e muito consumo. Não importa a falta de leitura se temos à disposição as imagens digeríveis da TV, e claro, as teclas Ctrl, C e V. Em meio a essa celeuma alguém ostenta que “somos da geração dos que amam a tua presença”. Mas é imprescindível que o amor por essa presença do Criador seja espelhado em atos concretos de justiça, fraternidade e caridade. Para ser membro dessa geração é preciso olhar o próximo como a si mesmo, se ver refletido nele, sem se importar com diferenças éticas, raciais e, sobretudo, religiosas. Que possamos revolucionar nosso tempo com a força do bom exemplo cristão e não com o uso da publicidade. Nessa geração abençoada só existe espaço para corações humildes, generosos e compreensivos como o de JESUS DE NAZARÉ.
Escrito por Claudemar Oliveira às 11h28
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| 13.10.2008 |
Passagem pela universidade
Nuvens de algodão
Deixo hoje a universidade. Na estrada restaram as marcas de cinco anos de caminhada: cadernos com poucas folhas em branco, rascunhos jogados ao chão do quarto, provas com as letras amareladas, crachás com fotos desbotadas, contratos de estágio vencidos, fichas de leitor da biblioteca completas.
Semelhante ao colibri, desvencilho-me do casulo. A partida é sempre carregada da contradição: dor e prazer entrelaçam-se. Carregamos conosco saudades e expectativas, essas duas filhas díspares da errância, esta a heroína-vilã que acompanha desde sempre os passos do homem.
Em minha trajetória acadêmica, provei sensações diversas. Cultivei amizades, fui aplaudido através do silêncio, do olhares tímidos e/ou desconfiados, da crítica ácida, também recebi vaias por meio de palmas falsas, sorrisos vazios, elogios convencionais. Mas, de tudo sou grato, aliás, tudo vale a pena se a alma não é pequena, recorda-te?
De Juazeiro, levo os sonhos plantados e regados à beira do Chico, nas ruas por onde andei. Não esquecerei as primeiras noites de calor em que não conseguia dormir, do rosto de choro e riso desse povo que não se pode explicar, dessas mulheres de corpo quente que convida ao pecado, do som que brotas nas vielas e becos dessa terra que exala cultura. Ah, Juazeiro, bem sabes do meu amor por ti, minha viçosa menina das carrancas douradas, das barquinhas românticas e da ponte sólida e amigável.
De Petrolina, a labuta. Três vezes cruzei a Dutra para, no solo pernambucano, perder o título de desocupado. Mas não fostes apenas fonte de meu sustento, doce princesa do sertão, inspiras poesia com tuas avenidas imperiais, teus castelos de concreto, tuas noites faceiras retratas n’água, tua fé imponente, teu povo rico-pobre-estrangeiro, alegre.
Uneb, nos teus corredores ecoaram meus gritos, em tuas salas suspirei meus sonhos, em cada canto desse prédio, uma sílaba, um ponto, tijolos de sabedoria colhidos; no entra e sai, tuas portas ensinaram-me a paciência e o respeito, tuas deficiências foram provocações para uma mente ávida por desbravar a floresta arisca da produção científica.
Da minha profissão: esposa fiel por suportares a dor dos meus adultérios. Ainda cedo, por ti perdi o encanto. Em lugar de tua formosura coloquei a paixão por estabilidade e salários tentadores. Mesmo fustigada, permanecestes paciente pelo meu retorno e assim me reconquistastes. Sou jornalista por reafirmação.
Dos amigos, eta gente boa encontrei por aqui. Pessoas generosas como dona Simone e Seu Maurílio, desinteressadas como Vaneide e amigas como Péu e Verinha. Delas e de outros seres humanos que conheci levo a gratidão, sentimento ambíguo de duas faces, quando reconhecido: nobre; qualquer lapso de memória: ingrato.
E eu continuo a caminho, mais um errante que vai errando ao som do tempo. Nessas idas e vindas, talvez registre em letras maiores a minha mocidade universitária, de como as nuvens não eram de algodão. Somos quem podemos SER...
Escrito por Claudemar Oliveira às 09h38
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| 14.04.2008 |
Emprego e concurso
Estudar com razão, e direito
Desde seu ‘descobrimento’, o Brasil testemunhou diferentes relações trabalhistas. Saímos da exploração indígena pelos portugueses (escambo), passamos pela escravidão sobre os africanos, mais em seguida o trabalho imigrante remunerado, e, para encurtar a prosa, chegamos ao serviço público, hodiernamente, muito disputado.
A tão sonhada vaga na administração pública requer forte preparação intelectual. Os concorrentes vêem das mais variadas especialidades: engenheiros, médicos, jornalistas, administradores, arquitetos. Em alguns casos, disputam entre si; noutros, competem com estudantes ainda do ensino médio. A opção pela carreira pública baseia-se, principalmente, no binômio: estabilidade profissional e bons salários.
Contudo, diante dessa guerra saudável pelos cargos públicos, os bacharéis em Direito são, visivelmente, privilegiados. Os conteúdos indicados para as provas, tanto em cargos de nível superior quanto médio, tratam de assuntos relacionados aos diversos ramos do Direito.
Por si só, a exigência de um domínio, seja básico ou aprofundado, em matéria jurídica dificulta a aprovação de muitos candidatos em detrimento do sucesso de outros, ainda que as organizadoras dos concursos ponderem no grau de complexidade das questões, que é considerado pelos experts como um “nivelamento por baixo”.
Mas pergunte a qualquer egresso do ensino médio, o que sabe sobre as leis 8112 e 8666, dobradinha recorrente nos certames Brasil afora? Minha opinião é a de que essas e outras legislações são necessárias, dada a correlação delas com as atividades dos cargos, todavia vale salientar também a universalidade, a todos é assegurado o direito de concorrer ao serviço público sem privilégios de qualquer natureza para nenhum candidato.
Podemos pensar na possibilidade de introduzir estudos jurídicos para os alunos secundaristas. Acredito inclusive que seria agradável conhecer a Constituição Federal, os direitos e deveres dos servidores públicos e as normas que a administração adota quando contrata com terceiros. Esse contato deveria ocorrer em doses homeopáticas, a partir do ensino fundamental quando os jovens adquirem a cidadania através do título de eleitor (dos 16 aos 18 anos o ato é facultativo).
A inserção dos conteúdos da área jurídica no ensino médio vai aguçar nosso senso de cidadania e fornecerá embasamento para nossas ações na sociedade. Podemos pensar melhor nisso, sem contar que o estudo das legislações e assuntos correlatos é uma atividade apaixonante; porém, só um detalhe: os concursos públicos não são passionais, o melhor mesmo é estudar com razão, e direito.
Escrito por Claudemar Oliveira às 20h14
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| 15.02.2008 |
Eleições nos EUA
Um presidente multiétnico
A eleição para a Casa Branca nos Estados Unidos está na fase de escolha dos presidenciáveis. No partido Democrata disputam a indicação o senador de Illinois Barack Obama e a senadora de Nova York Hillary Clinton; no lado Republicano concorrem o senador do Arizona John McCain e o ex-governador do Arkansas Mike Huckabee.
Entendendo as primárias. Os dois partidos têm delegados em todos os 50 estados do país mais o distrito federal de Colúmbia, onde fica a capital Washington. Os delegados são obtidos de forma proporcional aos votos dos eleitores comuns. Existem ainda os superdelegados, uma espécie de “homens bons” que votam de forma independente na convenção nacional marcada para agosto. Para ser indicado pelo Democrata o candidato precisa somar 2025 delegados.
As chances do senador negro e de origem muçulmana Barack Obama chegar à Casa Branca aumentam a cada primária. A Obamania cresce principalmente entre os jovens. Eles trocaram as futilidades ianques pela militância política, cena rara hoje em dia na terra do Tio Sam onde votar é opcional. Artistas e intelectuais vestem a camisa, assume a preferência por Obama e defendem a mudança, termo, aliás, bastante repetido na campanha de Obama que é patrocinada por cidadãos de todos os segmentos sociais.
De astros das quadras de basquetebol, os afro-americanos agora almejam ser mais que coadjuvantes de uma história onde atuam desde a época das 13 colônias. Obama simboliza a esperança negra. Contudo, o senador de Illinois agrega eleitores de todos os setores. Coerente, Obama dispensa a bandeira ético-racial e faz discurso multicultural.
A questão é: os americanos, pela primeira vez na sua história, aceitariam um negro no poder? O temor de que haja atentados racistas preocupa os assessores de Barack Obama. Desde o começo da campanha, Obama é protegido pelo Serviço Secreto. Como na premiada série 24 horas (cujo enredo é baseado em ataques terroristas aos EUA), dois presidentes negros sofrem uma ação criminosa dentro da Casa Branca. Na trama, esses chefes eram vistos como fracos para combater o terrorismo, tarefa para americanos natos, brancos e cristãos, subentenda-se.
Caso vença as primárias, Obama poderá disputar a presidência com o ex-prisioneiro da Guerra do Vietnã, John McCain. O senador republicano já fui prisioneiro de guerra, sofreu torturas e é entusiasta da política bélica do colega de partido George Walker Bush, ou seja, McCain pode continuar a política revanchista e retaliadora atual.
O pleito americano é decisivo para a ordem mundial, daí a urgência de um governante que dialogue com o mundo e pratique uma política multilateral. Obama é filho de pai africano, mãe americana e enteado de um asiático. A Casa Branca com parentes de todas as etnias. Yes, we can (Sim, nós podemos).
Escrito por Claudemar Oliveira às 20h32
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| 11.12.2007 |
Uma experiência quase concluída
Meus colegas em breve estarão à procura de emprego. Ainda lembro-me da ansiedade estampada na fisionomia de cada um, quatro anos atrás. Era setembro de 2003 e Juazeiro já esquentava os sonhos, o Velho Chico refletia as expectativas, a barquinha lembrava o nomadismo de alguns, a Presidente Dutra era a passarela do novo desafio.
Contudo, ressalto que esse não um texto de reminiscências. Não vaticinarei definições, apenas percepções construídas ao longo desses oito semestres. Imploro que não me processem se usar seus santos nomes em vão. Que fique claro: essa homenagem nasceu dos momentos, às vezes únicos, ocasiões outras e observações alheatórias.
Ana Carla, na sala, sempre tímida, olhar evasivo. A cadeira parece ser um esconderijo, ali se recolhe como se não quisesse ser percebida. Porém longe desse ambiente, mostra-se uma menininha sapeca: canta, sorri, brinca e diverte. Ana Jamille simboliza a coragem e a determinação femininas. Uma mulher de palavras firmes e postura coerente com suas colocações. Sem contar a grande visão que a faz enxergar o mundo bem melhor e, quiçá, com maior amplitude.
Cidiney aglutina idéias, gosta de fazer inferências, em sua maioria, muito proveitosas. Também sabe ouvir, mesmo que a pressa para falar o deixe impaciente. Para ele, a interlocução implica crescimento pessoal e profissional. Cíntia, além da autêntica beleza brasileira, agrega outra qualidade peculiar: a sinceridade. Com ela o verbo não fica preso, mas ao sair não ofende, sugere. Se não é possível expressar verbalmente, os gestos críticos o fazem por si.
Eduardo soube derrubar a barreira da pouca autoconfiança. A evolução intelectual dele, hoje, é facilmente perceptível. Articulação de pensamento e palavras concordes com o ato de falar são provas de que ele amadureceu. Glauber já consegue estrelar no palco da sala, apresentar seu estilo. Bem humorado e com uma alegria escancarada, ele arranca risos de todos. O estrelado na profissão virá com esse brilho e grandeza de espírito.
Greiciane pode até fingir, mas a sua inteligência supera a timidez. A velocidade de raciocínio e a capacidade de criação são qualidades que tentam se esconder atrás do seu silêncio. No olhar, a fina ironia, mas esta é usada para o bem. Helen respirou a academia. Soube como poucos ‘viver’ a universidade, sem, contudo, perder a habilidade com os livros. Uma célula intelectual em germinação que traz em si o DNA da boa articulista de idéias e pensamentos.
Hildemberg tem gestos duros, voz forte e idéias respeitáveis, em suma, um construtor dos raciocínios bem fundamentados. Ele junta inteligência e observação, ingredientes úteis para desvendar a ciência. Isabella traz a simplicidade no rosto e nos gestos. Mulher inteligente, ela acredita que aprender é eterno. Por isso está mais segura no vídeo e cuidadosa no lápis. A humildade lhe diz que ser bela não basta, é preciso ter qualidade.
Itamara quando assume um compromisso age com garra e competência. Não seria exagero afirmar que ela, apesar da juventude, tem atitudes maternas: sabe consolar, criticar. Uma garota resolvida e de fibra. Jean não sabe tudo, mas quer aprender. A face truncada não mete medo, talvez seja charme de roqueiro. O piso da sala parece ser sua fonte de inspiração. Nele sua bagagem cultural se reflete, como num caleidoscópio.
Karine possui uma gargalhada sem igual. O sorriso em tom alto e desprendido enche de alegria não somente a sala, mas o nosso dia. Coisa de gente feliz que enfrenta o cotidiano com muita paixão e sabe viver. Lizianne engana os desavisados. De infantil ela só tem a docilidade, sua personalidade é de uma mulher. O jeito meigo na voz e a leveza nas expressões dão a ela ares pueris. Com idéias maduras, o rosto pode ser de criança.
Lucilene acredita no romantismo e no amor entre os povos. Sobre ela, apenas isso bastaria. Mas pra a garota, união supera a idéia de equipe. Seu talento, sua paciência e sua companhia fizeram dela um imã de bons fluídos. Todos são atraídos e contagiados por seu carinho. Manuela não nega suas raízes e esbanja a negritude autêntica da mama África. Mãozinhas leves e ligeiras acompanham o sotaque gostoso, o riso solto e a energia positiva pura. O povo gosta, viu? Além disso, crítica, brincalhona e verdadeira.
Michele almeja altos vôos, gosta das alturas (vide suas sandálias). Para alcançar seus objetivos, ela tem aliados fortíssimos: inteligência arguta, desprendimento, coragem e criticidade. E o salto alto: é só nos calçados. Nomeriana apressa a fala pra evitar holofotes, senão logo fica vermelhinha. E hoje, ela dirige sua vida com segurança, escolhe bem seus caminhos e enxerga as coisas mais adiante. A pacata Afrânio que o diga.
Osvaldo quer mais é curtir o instante presente, dançar ao embalo da música da vida, roupas e problemas pro ar. Um bon vivant. É festa sem, contudo, perder o senso de responsabilidade. Plantar, curtir, se reconhecer e em seguida colher. Pâmela contou com a generosidade da natureza. A beleza dessa bonfinense não está apenas no olhar paralisante, mas na candura de seus pensamentos. Mesmo quando agredida, o revide não fere com a mesma intensidade.
Priscila personaliza dedicação e profissionalismo, além de ser defensora incondicional da ética. No entanto, por trás dessa mulher forte e disciplinada vive um ser emotivo e passional. Isso a instiga nas suas conquistas. Ramos assemelha-se a um comentarista perspicaz. Na sala, desempenha o papel dum exímio articulista da palavra concedida. Embromação? Caô? Não: contribuições. Até quando diz: Já passou a lista?
Raphael olha para a universidade como o campo do saber-fazer e não o inverso. Menino do sertão, nutre um forte apreço pelas causas sociais: do homem humilde do campo aos articuladores do semi-árido. Bom boêmio, germe de um intelectual de sorriso maroto. Thalita ‘invadiu’ a porta da nossa sala como um beija-flor. Expressão de pessoa séria, não chata. Calada, não medrosa. De perto, encantadora. Reter conhecimento é uma tática dela. De tanto calar-ouvir, vem conquistando seu espaço.
Valquíria prefere os bastidores e quando (se) apresenta, fascina pela sua organização. Destaca-se pela escrita leve e envolvente. Cativante, mesmo longe se fazia tão perto da turma. Agora sua sublime tarefa é ninar nenê. Vera Lúcia Sant’Ana (Verinha) adquiriu o apelido de maezona. O respeito veio naturalmente, nada de imposição ou coisa parecida. Mãe cujo alimento é também atenção, cuidado. Para muitos, seus conselhos são recados celestiais. Vera Lúcia Alves (Verona) ao ler isso, talvez diga: “Que merda é essa, Claude?” A mestra aprende e ensina entre noviços discípulos. Seu bom humor banhado pela palavra bem acentuada e penetrante, de merdice não tem nada.
Pois é! A experiência de serem cobaias do estudo da Comunicação no interior baiano está quase concluída. O que deixaremos como pegadas dessa aventura? Nossas lágrimas, suor, risos, brincadeiras, coragem, lutas, conquistas... nossos sonhos.
Na nossa saga, alguns abandonaram o barco, outros resolveram adiar a chegada e vocês como águias vão conquistar o céu. Voem alto. Orgulho-me de tê-los tidos como colegas. Torço pela realização profissional de todos, Deus guarde-os sempre.
Traduzo esse tributo com versos da música Epitáfio (Sérgio Britto) para dizer que é o fim de uma etapa da vida e o renascimento de outra bem melhor.
[...] Devia ter arriscado mais/ E até errado mais / Ter feito o que eu queria fazer... [...] Devia ter complicado menos/ Trabalhado menos / Ter visto o sol se pôr/ Devia ter me importado menos / Com problemas pequenos/ Ter morrido de amor.../ [...] O acaso vai me proteger / Enquanto eu andar distraído[...]
Escrito por Claudemar Oliveira às 10h31
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| 23.11.2007 |
Não é mera ficção
Uma polícia perfeita. Talvez seja essa a impressão que temos do FBI (em português: Departamento Federal de Investigação), polícia norte-americana. Essa imagem da corporação sempre foi retratada nas telas de cinema e nos seriados de TV e exportada para todo o mundo.
Se nos Estados Unidos, o FBI é louvado pela 7ª Arte, no Brasil, a PF destaca-se nos informativos da imprensa. As operações da Polícia Federal, dispensando qualquer obra de ficção, simbolizam a eficiência na luta contra o crime organizado. Por aqui, qualquer semelhança com a realidade não é mera ficção.
Outro dia, um colega (agente da PF) dizia-me que o cinema americano criou o mito de um FBI infalível. Quando falei do uso de roupas e bonés por civis com a sigla FBI e desta propaganda, ele informou que é proibida a comercialização de produtos com a marca da PF.
Não se trata de heroificar ou romantizar o trabalho da PF. Alguns defendem que ela age em prol do governo, outros sustentam que a PF dança conforme a música da mídia. O que não se pode negar é a moralização imposta pela PF aos crimes praticados por políticos, traficantes, empresários, juízes e outros servidores públicos.
Segundo dados da PF, até 21 de novembro desse ano, são 162 operações e 2084 prisões. É lamentável que uma dessas estatísticas logo diminua por causa da lentidão do Poder Judiciário no julgamento dos acusados. Estes acabam soltos ou vão responder ao processo em liberdade. Condenações? Pouquíssimas. Mas a PF é prestigiada pela eficácia.
A imagem da Polícia Federal é bem avaliada pela população. Uma pesquisa da Universidade de Brasília em parceira com a Associação dos Magistrados do Brasil revela que 75,5% dos brasileiros consideram a PF a instituição mais confiável do país. No quesito combate à corrupção, a PF com 25,1% das citações desbanca o Ministério Público (22,8%). O estudo foi realizado com 2011 pessoas de todo o Brasil.
Os números acima foram conquistados à base de um trabalho que envolve inteligência policial, investigação e preparação dos seus agentes. O ingresso na PF se dá por concurso público e exige muita preparação intelectual dos candidatos. A disputa pelas vagas reúne graduados de diversas áreas do conhecimento que almejam o prestígio da instituição e salário acima dos R$ 7.000. Dá pra encarar Jamille?
E entre nós, a atuação eficaz da Polícia Federal já incomoda muita gente. Aliás, alguém sabe por que Paulo Maluf considera a PF pior que a SS, a organização paramilitar nazista?
Escrito por Claudemar Oliveira às 12h14
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| 31.10.2007 |
Mais um império ameaçado!?
Todo império tem seu declínio. Muitos “profetas” já prevêem o ocaso do Tio Sam. Muitas vezes, o elemento externo é a causa dessa ruína. A concorrência limita e ameaça os poderes instituídos.
No Brasil, os impérios formaram-se em torno dos meios de comunicação (em especial a televisão), como o de Chateaubriand logo substituído pelo conglomerado midiático de Roberto Marinho.
Através da TV Globo, o império de mídia da família Marinho reina há mais de quatro décadas. Não por acaso, disse, certa vez, Chico Buarque: “O poder da Globo é assustador”. O próprio Roberto Marinho, à la Luis XIV, teria declarado: “Eu sou o poder”.
A liderança da TV Globo é sustentada telenovelas e a Central Globo de Jornalismo. Ela exporta suas novelas para mais de trinta países, é a principal fonte de informação do brasileiro e abocanha quase 80% do mercado publicitário.
Contudo, de acordo com a edição 468 da revista Carta Capital, a emissora do Projac sofre a redução da audiência nos primeiros oito meses desse ano. De acordo com o Ibope, a audiência da Globo caiu 7% no horário nobre em âmbito nacional e na Grande São Paulo, 9,5%. Enquanto isso a TV Record avança. No horário nobre em nível nacional, 22,5%; na região metropolitana paulista, 23%.
Talvez seja prematuro cogitar a queda de mais um império, mas o crescimento da Record incomoda a Vênus Platinada. A expansão da Record é fruto, entre outras coisas, de altos investimentos financeiros, contratação de profissionais (saídos da própria Globo, inclusive) e aquisição de novos estúdios de gravação e equipamentos modernos.
A nova empreitada contra a Globo é a Record News, um canal gratuito com notícias 24 horas. Na outra ponta, a TV Record aposta nas telenovelas e num perfil jornalístico similar ao da concorrente. As Olimpíadas de 2012 em Londres serão transmitidas com exclusividade pela emissora da Barra Funda.
A fórmula usada para destronar a TV Globo pode ser traduzida nessa variante do ditado popular frase: “Se você não pode vencer seu inimigo, imite-o”. E se os programas são iguais, o zapping (mudança de canal) diminui.
Se as investidas da Record assinalam para o declínio do Império da Globo, a paciência para acompanhar os passos da História é a melhor resposta. Vale a pena apostar na idéia de que “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Afinal todo império tem seu fim e a Globo não está isenta disso. Vá pleitear com a História que não.
Escrito por Claudemar Oliveira às 09h41
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| 16.10.2007 |
Enigma do se acha. Graça
Quarenta e nove meses: reflexão. Atenção. Murmúrios na multidão. Sussurros na escuridão, gritos calados. O que será que será? Ego? Nego.
A representação basta. O signo, sem o ficado. O referencial, forjado. Inventado. Não há problema. Teorema. Frases descompassantes. Delirantes. Mitifique-se: Claudemar se acha. Relaxa.
O mundo é virtual. Banal. O real simulado. Finado. Somos o que queremos ser. O que podemos ser. O que devemos ser. Ter. Exercício de inteligência, demência. A briga pelo foco. Sufoco. Neurônios em ação, gladiação.
O conhecimento, preservado. Calado. Perturba o sono da ignorância. Ânsia. Mentes pensantes, sonhos e pesadelos vãos. Se vão. O livro lido, inimigo. Tecnologia, sem sabedoria.
A troca de carícias, malícia. Banquetes de vinho. Sozinho. Sorrisos de plásticos. O som do agrado. Louvado. Respeito à diversidade, falsidade. Quem não adula, macula.
O espelho: uma arma. O corpo, uma prisão. No rosto: a sociabilidade, maldade. Nos lábios, ternura. Feiúra. Claudemar se acha. Rechaça. E passa.
Espaço oco, tosco. Caverna escura, sem figura. Projeção, embromação. Falar é loucura, desventura. Pobre Claudemar, se acha. De graça.
O que será que será? As pedras falarão. Solução? Imposição na mensagem X reino da passividade. Menino Claudemar, se acha. Raça.
No templo da sabedoria, orgia. As diferenças, descrenças. Vaidade ou esnobação? Ilusão com narração. Sem enganar. Solitário Claudemar, se acha. Abraça.
Contexto, análise e estudo se vão, sem perseguição. O verbo da fantasia, letargia. Nada a declamar, tolerar. Obstinado Claudemar, ainda se acha. Graça.
Escrito por Claudemar Oliveira às 10h11
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| 02.10.2007 |
Fuleragem não vem de berço
O vídeo-debate “O Estado da Arte da Fuleragem” com roteiro e direção de Luis Sérgio Ramos e Josemar da Silva Martins (Pinzoh) discute a maciça erotização nas músicas e coreografias do forró, pagode e do funk. A fuleragem é entendida como o empobrecimento cultural das duas formas de arte mais próximas da população.
Mas o que explica nosso fetiche pela fuleragem? 1ª tentativa: a herança cultural dos ‘fuleros’ lusitanos que por aqui atracaram. 2ª opção: nossa tradição fulera se dá por osmose. Inconscientemente a gente canta “Ela é fulera (3x)?” O vídeo não se detém na análise histórico-psicológica da fuleragem.
O argumento mais contundente para esse gosto pela fuleragem seria a diversidade étnico-cultural brasileira. Vivemos num paraíso tropical onde tudo é permitido. Conforme Buarque: “Não existe pecado do lado debaixo da linha do Equador”.
E qual o problema em gostar da fuleragem? Nenhum. No seu depoimento, Caetano Veloso polemiza quando afirma que o tropicalista era um fulero. Além disso, renegar a fuleragem seria incorrer num suicídio cultural. No documentário, alguns depoimentos ratificam esse pensamento conciliatório, como os do sambista Riachão e do compositor baiano Alexandre Leão.
Contudo, as críticas mais ásperas residem na forma de enunciação do erótico. Musica é poesia e não pornografia; é o que se lê na fala de alguns entrevistados, como a antropóloga Odomaria Bandeira.
Mesmo assim, não caberia aqui desqualificar ou exterminar a arte da fuleragem. O preconceito cultural é burrice. Até porque há licença poética pra tudo. Quando Djavan diz: “Mais fácil aprender japonês em braile/ Do que você decide se dá ou não”; e se ouve: “Toma gostosa lapada na rachada/ Você pede e eu te dou/ Lapada na rachada”. O assunto é o mesmo, ainda que cantado de maneira bem distintas.
A dança, enquanto arte, é que não pode ser transformada numa atração sadomasoquista. Sensualidade não implica ser vulgar. Uma dançarina rebolar-se agredindo o órgão genital não é coreografia, quiçá exibicionismo barato.
Por outro lado, a alegação de que as prefeituras fomentam, indiretamente, a erotização ao contratarem bandas fuleras, como defendem alguns entrevistados, é um argumento bem simplista. Poucos se lembraram da função das mídias. As rádios têm o dever de respeitar nossa diversidade musical; nossa música não é somente fuleragem. A TV, também, precisa retratar o som e o tom multiétnico-culturais das nossas artes. Ou vamos esquecer que ‘gosto musical não vem de berço, é um produto cultural’, defende Pinzoh.
Escrito por Claudemar Oliveira às 11h25
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| 18.09.2007 |
Precisamos de quê, realmente?
Não se escuta outra coisa dentro da Escola de Comunicação do Vale (termo meu): a reclamação dos universitários quanto às deficiências da faculdade. E eles precisam de quê realmente? De uma emissora de televisão, de rádio? De um jornal laboratório? Um ciberespaço? De tudo isso, claro, e um muito mais.
Contudo, não se pode entender o silêncio quando a pauta é trabalhar a palavra escrita (considere também a digitada como tal), a matéria-prima do bom jornalismo. Nem um eco ressoa. O comunicador social não existe sem a palavra escrita ainda que navegue por mares nunca dantes navegados. É matar o verbo antes que ele se torne carne e habite entre nós.
É preocupante notar essa fuga ao texto escrito. A culpa seria da ausência do aparato tecnológico (leia-se laboratório audiovisual)? Quem esboça qualquer apego às letras, logo é consolado (sic): “Você tem cara de impresso”.
Então na TV e no rádio a palavra não tem valor? Ela não passa de sinônimo da frustração profissional. Ser jornalista de imprenso é cair no anonimato do espetáculo que virou o jornalismo. Jornalista de verdade é quem posa pra câmera ou sibila para um microfone. Nada de conteúdo, a imagem diz por si; falar sem precisar escrever. Viva a retórica.
Resistiremos sempre ao duelo com as letras? É possível ser jornalista sem ter intimidade com a palavra lapidada numa folha de folha ou numa tela de computador? Para Clarice Lispector “A palavra é o meu domínio sobre o mundo”.
O resultado desse desapego pela palavra escrita se traduz no googlornalismo - o jornalismo Ctrl C, Ctrl V, o gilete press em sua versão mais atual.
Assim poderíamos, quem sabe, diminuir o barulho e não abandonarmos o verbo, o vocábulo bem escrito. O jornalista não é ninguém sem ele. Afinal, não é disso mesmo que precisamos?
Escrito por Claudemar Oliveira às 20h37
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| 03.03.2007 |
Chuva anunciada
Seu Laurindo é um homem apegado à vida rural. Hoje ele está esperançoso. Acordou cedo, como sempre faz, e está à procura de nuvens no céu. Depois observa a direção do vento e, com a voz cansada, anuncia: “Avia Jurema, prepara os baldes que hoje tem chuva das boas, mulê”. No noticiário matinal uma informação contrasta com afirmação acima. “Uma massa de ar quente afasta as chuvas na região”, diz o apresentador.
O dia vai passando. Na cidade, a pressa da vida moderna. Um eterno atraso. “Rápido vovô. O sinal vai fechar”, impacienta-se o motorista. Na roça seu Laurindo continua seu ritual. Olha o mandacaru em flor e acredita que a chuva está chegando. Indiferente às previsões do noticiário, ele espera o momento de lagrimas do Criador abençoar o sertão. Tente explicar-lhe que a evaporação é a causa da chuva.
A noite chega. Os sapos cantarolam. Ao longe se ouve o estrondo dos trovões. Em minutos, tímidos pingos tocam o telhado. Chove. É a água que veio lavar as vidas secas de tantos Laurindos. O campo fica cheio de vida. A brisa suave beija o rosto dos andarilhos.
Pela madrugada seu Laurindo vai medir a molhação da roça. Já pensa em vender a galinha para comprar a semente.
No rádio o repórter: “Chuva deixa 100 famílias desabrigadas”. As sirenes soam pela cidade. Alagamentos, casas invadidas pela água. Pessoas desabrigadas. Caos. Será a chuva motivo de transtornos? Não. Ela apenas revela a deficiência do sistema de escoamento. Bueiros entupidos. Casas nas encostas. Chuva foi feita para chover.
Fartura e riqueza de um lado; problemas e contratempos de outro. Esse é o paradoxo de uma chuva anunciada. Dona Jurema recolhe os baldes.
Escrito por Claudemar Oliveira às 18h36
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| 13.11.2006 |
Escrever: uma guerra intelectual
Escrever para mim é um desafio. Quando tenho de fazê-lo é como se fosse matar um leão: animal feroz que vive dentro de mim. Procuro no mais íntimo de mim as palavras certas, os vocábulos adequados para cada situação. Ainda que estes e aquelas teimem em fugir de mim. Em suma, não é nada fácil. Mas como jornalista preciso travar essa disputa, ou melhor, essa guerra intelectual.
O Grande Poeta mineiro disse que escrever é “a arte de cortar palavras”. Eu diria mais que isso: escrever é renunciar a si mesmo e buscar através da escrita expressar aquilo que somos, nossa identidade. Quando escrevo sinto um vazio dentro de mim, como se minha energia tivesse sido sugada. É que sempre acredito não ter sido compreendido. Meu relacionamento com as palavras é um algo conflitante. Elas me provocam, reúnem-se todas em minha mente e quando vou ao encontro delas, voam como pombas silvestres.
Começo minha guerra - sem canhões e mísseis - rascunhando um pedaço de papel em branco. Este é semelhante a um espelho, porém só nos veremos refletidos nele após preenchermos a folha com letras, pontos, vírgulas e travessões. Findo o texto, normalmente nos questionamos se não poderíamos ter feito coisa melhor. Nossa vaidade intelectual vai às alturas nesse momento. Então rasgamos o indefeso papel por acreditarmos que este nos considera uns idiotas, incapazes de expressar numa simples folha o que pensamos ou sentimos.
Como disse anteriormente, o ato de escrever assemelha-se a uma guerra, guerra intelectual. Mudam-se os instrumentos bélicos: no lugar dos mapas, a folha de papel; os canhões e mísseis são substituídos por lápis e canetas. Então caminho para o front de batalha. Olho para o papel como os grandes imperadores estudavam o relevo das terras que pretendiam conquistar. Cada espaço deve ser esquadrinhado cuidadosamente, assim como as infinitas linhas precisam ser devidamente preenchidas.
Cada frase, oração ou período escritos enchem de alegria meu coração assim como as batalhas vencidas coroam este órgão dos combatentes na trincheira. Assim como a guerra militar exige estratégia, a intelectual também requer algumas ações táticas. A principal medida para iniciar um texto é a leitura. Leio de tudo para abastecer-me de conteúdo e assim encher as linhas da folha com algo que seja útil ao meu querido leitor.
Percorro os lugares mais recônditos da minha memória, as experiências de vida e a inspiração de grandes autores também ajudam. Sigo em frente. Agora pergunto a mim o que sei sobre o que estou escrevendo e a resposta é simples: não faço idéia. Apenas que para esse tipo de produção que estou fazendo dão o nome de metalinguagem: explicar o que é escrever, escrevendo.
Normalmente o rascunho é um recheio de garranchos. Tudo para termos a falsa sensação que estamos produzindo. Quando mais linhas rabiscadas, maior a segurança de um futuro bom texto. Colocamos na folha todo tipo de idéias que nos vêem à mente, desde as mais desconexas àquelas mais inspiradas. No final ajeitaremos tudo.
Finalizado o rascunho (primeira batalha vencida) resta-nos agora vencermos a guerra: o texto final. Como o comandante de uma tropa, analisaremos as táticas usadas e os erros cometidos durante o embate. Editaremos os parágrafos, priorizaremos os períodos curtos, escolheremos as palavras que melhor expressam nossas idéias (não esquecendo, claro, do contexto em que as utilizamos). Enquanto estamos passando nosso texto a limpo, ainda aguardamos as inspirações divinas, aquelas que parecem ter sido enviadas por algum “anjo torto” drummondiano. Agora sim é hora da conclusão.
Entrar nessa guerra intelectual (escrever este texto) custou-me muita resistência. No entanto, depois de ir pro front (começar o rascunho) os medos, as inseguranças e tudo mais desapareceram. É somente no desenvolver da guerra que se revelam os grandes e destemidos guerreiros, dizem.
Resta-nos fazer uma convocação aos interessados: o Brasil está precisando urgentemente dessa guerra intelectual e você: deseja alistar-se?
Escrito por Claudemar Oliveira às 13h49
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Ao jovem escritor
Li o seu texto. Franzi a testa duas ou três vezes. Fiquei surpresa com algumas frases. Pensei bastante em outras. Resolvi escrever. É sempre interessante ver a escrita como desafio. Achei mais interessante com a associação feita ao ‘matar um leão’ que vive em você. A busca pelas palavras certas é o leão ou a morte do leão? É difícil matar, não matar, escrever, os três ou deixar o leão vivo?
Voltaire tem um outro pensamento que fala de paixão que gosto de encaixar quando penso em escrever: ‘Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas.’
Em Drummond: ‘Tenho apenas duas mãos /e o sentimento do mundo (...) Os camaradas não disseram/que havia uma guerra/e era necessário/trazer fogo e alimento./ (...)’.Acredito em ‘expressar aquilo que somos’, mas sem ‘renunciar a si mesmo’. O vazio, ao contrário, deixa de existir quando escrevo porque me encho de pensamentos e palavras, de sentimentos e sonhos e minha energia é alimentada até mesmo da incompreensão.
As palavras se alinham, muitas vezes, em trocadilhos, encontros e desencontros. É o início da harmonia entre o meu mundo e o universo da mágica arte de traduzir pensamentos, conhecimentos, experiências. O papel em branco, as duas mãos e o sentimento do mundo entram em sintonia com o silêncio misterioso dos meus pensamentos e invadem as páginas através das letras, exclamações, interrogações que se misturam em introduções e desenvolvimentos.
O pensamento do ‘fazer melhor’ vem com o tempo, ao ler o mesmo texto centenas de vezes. As palavras ‘melhores’ vão sendo percebidas e acrescidas, nunca modificando as primeiras. A simplicidade do entendimento da melhoria paulatina, mas constante, é nosso prazer. Não existe incapacidade de expressar o que se pensa ou sente em uma folha de papel, que, por sinal, não deve receber o título de ‘simples’.
O papel representa a força do registro dos fatos que sustenta a escrita, que revela a paz ou o conflito, que pode ser enviado, provocando a captura, a soltura ou a morte do leão interior. Ele é forte e se mantém. Escrever é encontrar a paz, é acalmar o espírito, é exercer o dom, é desabafar as dores, 'rir meu riso e derramar meu pranto, ao seu pesar ou seu contentamento'. A idéia de arma como significado do poder exercido pela escrita, fez desabar a paixão. O papel precisa do olhar perdido dos apaixonados, sem perder sua determinação pela conquista, o cuidado das ações e a necessidade de rematar.
A leitura não precisa ser uma ‘medida’, precisar ser uma vontade que vai preencher as lacunas da vida dia a dia, displicentemente útil a qualquer pessoa. A boa memória é um privilégio, as experiências de vida uma realidade, a inspiração dos autores uma ‘mão na roda’, lembrando, inclusive Sócrates com o alívio do: ‘Só sei que nada sei’ e não esquecendo Dickens com a salvadora: ‘Cada fracasso ensina ao homem algo que necessita aprender’. E o bom disso tudo é que acontece assim, casualmente, vivendo, aprendendo. Você não precisa de ‘falsa sensação que está produzindo’, pois você produz e as suas ‘mal traçadas linhas’ são, a exemplo desse texto a que estou comentando, seguros dentro da sua insegurança na busca pelo que você chama de ‘futuro bom texto’.
Esqueça as regras. Paixão não tem regras. Escreva com a alma e corrija os erros depois com uma segunda leitura, antes de passar a um professor ou publicar em jornal, mesmo no mural da escola. Não existem táticas nem embates. Edite os excessos emotivos que não quer que sejam vistos, priorizaremos a verdade e o compromisso com seus ideais, mesmo em períodos necessariamente longos. Escolha as palavras que e aproximam do contexto de seu público e utilize a crítica sutil. Deixe que seus textos sejam ‘passados’ pelos personagens de suas matérias, a partir do resultado de e para cada um deles.
Os anjos estão sempre por perto e a conclusão não existe, pois o exercício do amor pela escrita é eterno. Distancie-se dessa tal ‘guerra intelectual’ que traz a resistência, anda que cultuada por alguns, mesmo que sejam os autores inspiradores. Abandone, nesse imaginário de guerrilha os medos, as inseguranças e trabalhe razão e emoção juntas. Escreva. Você vai ver que não é o caso de convocar, mas de perceber e fazer. Mas, ainda assim, não esqueça de Aristóteles quando dizia que: ‘Se está ao nosso alcance fazer, também está não fazer’. Tudo é uma questão de escolha.
Cristina Laura, eternamente apaixonada pela escrita’.
Escrito por Claudemar Oliveira às 13h40
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| 02.11.2006 |
Magistrados, os empregados do povo
Em outubro participei de um curso de capacitação jurídica para comunicadores e estudantes de jornalismo promovido por uma entidade de magistrados baianos. De início, imaginei que discutiríamos os termos jurídicos, como usá-los, como simplificar o juridiquês (nesse sentido leia neste blog Acusado é Culpado?).
Pois bem, ledo engano. A começar pelo motivo do evento que seria corrigir a percepção estereotipada que a população atribuiu ao Poder Judiciário, tomando-o como um órgão lento e misterioso segundo pesquisa realizada em quatro capitais brasileiras. Na fauna brasileira o Judiciário equivaleria a uma tartaruga.
Mas a culpa disso é do jornalista que informa erradamente sobre a atuação do Judiciário? Não. Segundo um dos palestrantes a Justiça é lenta porque isso interessa a alguém (Poder Executivo, maior réu da Justiça). Sim, e daí? O que os jornalistas, meros mortais, têm a haver com essa briga entre os Poderes? Nada. A imprensa seria então aquela que irá mudar a opinião pública? Parece.
Na capacitação foram expostos alguns fatores que contribuem para a morosidade do 3° Poder: os juizes gastam muito tempo com tarefas administrativas em detrimento das jurisdicionais. Isso não é motivo para capacitar ninguém concorda? Em seguida, um workshop com uma reportagem do Fantástico do caso Suzane Von Richthofen e os irmãos Cravinhos adentramos no tópico mídia e Justiça.
Ouvimos a palestrante execrar a atuação do jornalismo que acaba omitido as circunstâncias do crime, a contextualização da noticia, nesse caso o que teria levado Suzane a matar os pais (jornalismo literário, resquício de Capote). Em contrapartida a atuação do advogado, ótimo diretor de cena melodramática, foi suavizada.
Não é aliciando o jornalista que o Poder Judiciário terá uma melhor avaliação perante a sociedade. Vide os médicos, alta confiança junto à população, ainda que a imprensa destaque, quase sempre, as deficiências da saúde. Os jornalistas necessitam sim de capacitação continua seja jurídica, profissional. Mas mais que isso o jornalista precisa de informação vinda do Judiciário, um poder tido como fechado e intocável.
Se a Justiça está abarrotada de processos, os jornalistas devem noticiá-lo. Se o Executivo emperra o Judiciário, coloque-se o microfone na boca de algum magistrado que torne isso público.
Limitações todas as profissões tem, inclusive o jornalista, vide a rotina de trabalho deste. Se o Judiciário que tem poder para derrubar o presidente, como bem disse um palestrante, não o tem para resolver suas questões internas, isso não é culpa do jornalista.
Um contraponto que achei pertinente durante o evento foi o questionamento feito a um dos palestrantes sobre a posição de uma juíza em São Paulo que defendeu o exercício da profissão de jornalista por profissionais sem formação superior. Afinal como querer capacitar juridicamente, e desprezar a primeira e mais importante das capacitações: a acadêmica? Pena que os debates foram tão mal conduzidos, outra falha do curso.
Se for para usar o jornalista como exterminador dos estereótipos que tal desburocratizar o funcionamento do 3° Poder e estreitar a relação com a imprensa, tornando-se uma fonte de informação mais acessível para os repórteres?
Sem a supervalorização do cargo ou síndrome de privilégios e status social, afinal nossos doutos magistrados também são empregados do povo, não é mesmo?
Escrito por Claudemar Oliveira às 16h15
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BRASIL, Nordeste, AMERICA DOURADA, DISTRITO DE IPANEMA , Homem
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